16/03/2011
Marcha pelo Dia Internacional das Mulheres reúne cinco mil manifestantes no centro de São Paulo
"Respeito a gente não consegue abaixando a cabeça, mas falando alto"�, diz Viviane Souza, que aprendeu esse princípio com a mãe e agora repassa para as duas filhas. Ao lado da mais velha delas, a presidenta do Sindicato dos Metalúrgicos de Itaquaquecetuba participou da marcha pelo Dia Internacional das Mulheres, que tomou a região central da capital paulista na manhã deste sábado (12).
Primeira mulher a ocupar a presidência de um sindicato de metalúrgicos no Estado de São Paulo, ela acredita que o passo inicial para mudar a sociedade machista é modificar a estrutura familiar. "Temos que começar tirando o machismo de dentro de nossos lares, não só da cabeça dos homens, mas também de nossas companheiras que ainda aceitam a situação de desigualdade e violência imposta desde a colonização. A luta é enorme, mas tivemos guerreiras que foram abrindo caminho e agora devemos continuar tomando o espaço que está aí para ser ocupado nas comunidades"�, define.
Da mesma forma que ambas, cerca de cinco mil manifestantes enfrentaram a chuva para defender a luta contra a violência sexista, por igualdade, dignidade, autonomia e direitos das mulheres em uma passeata organizada por mais de uma centena de entidades dos movimentos sociais.
Dilma será cobrada
A secretária estadual da Mulher Trabalhadora da CUT-SP, Sônia Auxiliadora, destacou ainda a relação de duas das principais reivindicações da Central única dos Trabalhadores, a redução da jornada de trabalho sem redução de salário e o direito à creche, com a igualdade na vida privada. "O movimento sindical tem o desafio e a responsabilidade de debater o compartilhamento das tarefas entre homens e mulheres, porque queremos a redução da jornada para 40 horas semanais, mas não é para fazer mais trabalho doméstico, ampliar ainda mais a dupla jornada que já fazemos, e sim para podermos estudar, nos aperfeiçoarmos, termos tempo para o lazer e para descansar com a família"�, apontou.
Nesse sentido, ela comentou também a vitória do Brasil ao eleger a presidenta Dilma Rousseff e lembrou o compromisso assumido por ela durante a campanha de construir seis mil creches. "Precisamos estar juntas para cobrar da nossa presidenta avanços como a ampliação de creches públicas para que não sejamos privadas de entrar no mercado de trabalho ou ingressarmos na vida pública porque não temos ninguém para cuidar de nossos filhos."�
Acostumar com o poder " Para a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Juvândia Moreira Leite, os dois pontos principais que unificam a luta feminista neste momento são o combate à violência doméstica e a diferença salarial entre trabalhadores e trabalhadoras. "A cada dois minutos, cinco mulheres sofrem violência no Brasil. Apesar do número ter diminuído nos últimos 10 anos, especialmente após a criação da Lei Maria da Penha, em 2006, o dado ainda é alarmante. Além disso, sabemos que a mulher brasileira, mesmo com maior escolaridade do que o homem, recebe 30% a menos para desempenhar a mesma tarefa."�
A dirigente acredita que, mesmo o movimento sindical ainda refletindo o mercado de trabalho, com um número pequeno de mulheres nas direções de centrais, confederações, federações e sindicatos, já há uma melhora sensível. "Desde 1993, quando a CUT instituiu a política de cotas para gênero, que estabelece o mínimo de 30% de representantes de mulheres na direção, passamos pela construção de um novo conceito. Isso inclui trazê-las para o movimento e fazer com que se acostumem a ocupar o poder"�, disse.
Políticas pela igualdade
Para a psicóloga e coordenadora do Observatório da Mulher, Rachel Moreno, a única forma de avançar na luta por igualdade é tomar as ruas e cobrar políticas públicas. "Apesar de a legislação garantir igualdade, e mesmo com a propaganda federal dizendo que agora podemos ser engenheiras, arquitetas e operárias, precisamos de oportunidades que nos permitam fazer isso acontecer"�, comentou.
"Não haverá mais mulheres no poder se não houver uma reforma política que garanta a distribuição de recursos equitativos entre homens e mulheres e o mesmo espaço na campanha. Não haverá o fim da diferença em termos de cargos, empregos e salários se não houver estàmulo à empresa que efetivamente promove a paridade ou sem que exista algum nàvel de fiscalização e sanção para quem não pratica a igualdade"�, acrescentou.
A mobilização é ainda mais necessária para discutir um outro tema polêmico que esteve presente no período eleitoral: a legalização do aborto. "Vamos ter que nos unir como fizemos hoje para mostrar que o direito à vida é um direito das mulheres. É uma questão de saúde pública e não de religião, o Estado deve fornecer o atendimento médico adequado e eu acredito que vamos conseguir ter esse movimento da nossa presidenta indo às ruas e mostrando que estamos mobilizadas"�, falou Raquel.
Democratizar e liderar
Também presente na manifestação, a cientista social Tatau Godinho indica que a percepção sobre a desigualdade cresceu, mas ainda não é muito claro onde ela se faz presente.
Para modificar esse quadro, afirmou, é necessário ampliar a atuação militante a partir dos próprios bairros e também democratizar os meios de comunicação. "Os grandes veículos passam uma imagem desqualificada da mulher, fútil, de alguém que só se preocupa com estética e vende para ela um único ideal legítimo, a família e os filhos. Devemos questionar essa imagem e indagar: se a imprensa diz falar em nome da sociedade, afinal, de qual sociedade está falando?"�, pergunta.
Por fim, Tatau acredita que a eleição de Dilma representa a quebra de um paradigma. "Muitas mulheres estão nos movimentos sociais, mas não estão no cargo de direção. Estão na militância, mas o funil não permite chegar aos espaços de maior expressão política. Uma mulher na presidência mostra que as mulheres precisam e devem ajudar a conduzir o país, o sindicato, o movimento social."�
Escrito por: Luiz Carvalho - Fonte: CUT / por Assessoria de Imprensa 16/03/2011
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